
A última mensagem recebida no celular do advogado Roberto Zampieri, momentos após a sua execução em 5 de dezembro de 2023 no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá, foi do desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso (TJMT), Sebastião de Moraes Filho.
A informação foi dada pelo delegado da Polícia Federal (PF), Marco Bontempo, durante depoimento prestado hoje (28) no Plenário do Tribunal do Júri que ocorre em Cuiabá.
Segundo o delegado, a mensagem chegou no aparelho da vítima cerca de cinco minutos após o homicídio, antes mesmo de o caso ser divulgado publicamente.
“Lembro da foto que era do desembargador Sebastião. Acredito que por volta das 21h ou 22h. Tinha uma mensagem em tom de despedida enviada acho que cinco minutos após a morte”, relatou a testemunha perante o tribunal.
Ao ser questionado pelo advogado de defesa Felipe André Laranjo, Bontempo confirmou que a notificação chamou a atenção da equipe policial e passou a ser apurada como uma das linhas de investigação do homicídio.
“A investigação trabalha com várias hipóteses. Foi levantada uma hipótese relacionada ao desembargador Sebastião. Essa mensagem realmente levantou uma estranheza inicial”, pontuou.
O depoimento do delegado ocorreu durante a sessão de julgamento dos três réus acusados de planejar e executar o crime. Respondem por homicídio triplamente qualificado no banco dos réus Antônio Gomes da Silva (apontado como atirador), Etevaldo Luiz Caçadini Devargas (acusado de financiar a ação) e Hedilerson Fialho Martins Barbosa (apontado como intermediador).
A sessão do Júri Popular é presidida pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, da 11ª Vara Criminal – Justiça Militar e Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá. A acusação é conduzida pelos promotores de Justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT).
Comércio de sentenças
O desembargador Sebastião de Moraes Filho encontra-se afastado de suas funções judiciais sob a suspeita de integrar um esquema de negociação de decisões judiciais no Estado.
As investigações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e da Polícia Federal apontam que o magistrado teria recebido vantagens indevidas, incluindo barras de ouro, para favorecer processos patrocinados pelo advogado Roberto Zampieri, com quem mantinha proximidade.
O magistrado atingiu a idade limite de 75 anos e foi aposentado compulsoriamente no decorrer das apurações.
O celular “bomba” de Zampieri
Durante o interrogatório, o advogado indagou o delegado sobre a dimensão dos desdobramentos que surgiram após a apreensão do telefone da vítima. Na pergunta, a defesa questionou se a perícia no aparelho deu origem ao “maior escândalo do Poder Judiciário do Brasil na história“, ao que o delegado da PF respondeu afirmativamente.
A extração dos dados contidos no celular de Zampieri revelou um mega esquema de negociação de decisões judiciais no Estado. As provas colhidas pela PF e pelo CNJ resultaram no afastamento dos desembargadores Sebastião de Moraes Filho, João Ferreira Filho e Dirceu dos Santos, além do juiz Ivan Lúcio Amarante, todos investigados por suspeita de receberem vantagens indevidas e propina para beneficiar causas patrocinadas pelo advogado.
A perícia, no entanto, extrapolou as fronteiras de Mato Grosso e deu origem à Operação Sisamnes, deflagrada pela Polícia Federal com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF). As apurações prenderam o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves e atingiram chefes de gabinete e assessores de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), como Isabel Gallotti, Og Fernandes e Nancy Andrighi.
O escândalo envolve a negociação de minutas de decisões judiciais e gerou uma investigação sigilosa no STF sobre o suposto envolvimento de integrantes do próprio STJ no esquema.
Fonte: GC Notícias












