
O sonho de desenvolver um grande empreendimento agroflorestal no Norte de Mato Grosso foi ceifado no dia 5 de junho de 2006. Nessa data, através de um decreto sem número, o governo federal, no último ano do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, criou o Parque Nacional do Juruena. O documento arrecadava 1.957.000 hectares de terra nos municípios de Apiacás, Nova Bandeirantes e Cotriguaçu, em Mato Grosso, e mais dois municípios do Estado de Amazonas: Apuí e Maués. Uma vastidão territorial quase do tamanho de Israel e da Eslovênia que com um ato administrativo foi transformada em área de conservação. Nem tudo era mato nessa grande porção de terra. A demarcação do parque nacional afetou diversas propriedades privadas, até então, legalmente estabelecidas no Norte de Mato Grosso.
Uma dessas fatias de terra pertencia aos irmãos Jefferson e Helena Salomão. Produtor rural no Mato Grosso do Sul, Jefferson começou a sonhar com as terras a serem desbravadas mais ao Norte. Entre os anos de 2000 e 2001, um funcionário que passou por suas fazendas comentou da sua experiência em Colíder, Mato Grosso, e se propôs a achar uma boa área para o patrão ampliar suas terras. Ainda em 2001, Jefferson vendeu uma fazenda em Mato Grosso do Sul para comprar uma boa porção de terra no Norte. “Eu queria uma área para pecuária e para manejo florestal, mas que fosse tudo dentro da legalidade”, conta Jefferson.
O negócio que apareceu foi em Nova Bandeirante. Jefferson, a irmã e seus respectivos cônjuges, conseguiram juntar 12 matrículas contínuas, que juntas somavam 38.776 hectares. Essa seria a maior porção de terra que Jefferson já conquistara em toda sua vida.
A terra era vasta, de bom solo, entre dois rios, toda coberta de mata nativa. Porém, totalmente isolada do mapa. Aos poucos Jefferson foi abrindo estradas e construindo pontes para ocupar e transformar a propriedade rural em uma área produtiva. Buscou financiamentos para fazer a infraestrutura e comprou uma serraria em Nova Bandeirante. “Eu queria fazer o ciclo completo da madeira, com manejo aprovado, extração, beneficiamento e comercialização sem ter problemas ambientais. Tinha muita árvore de grande porte, que uma enchia uma carreta. Angelin, maçaranduba, ipê, peroba rosa… uma riqueza. Acredito que havia mais de R$ 800 milhões em madeira nessa área”, lembra Jefferson.
Ao lado da fazenda dos irmãos Salomão ficava o “Garimpo de Juruena”, um dos maiores campos de extração de ouro do Brasil na época. Jefferson pretendia apenas explorar o que estava do solo para fora. Para conter a vizinhança, o proprietário teve que colocar seguranças e vigiar suas divisas para que qualquer exploração indevida (criminosa), não comprometesse seu projeto de manejo.
Ao longo dos anos os irmãos conseguiram implantar o manejo florestal em 29.787 hectares da propriedade. Construíram uma casa de sede com 300 metros quadrados, curral, 20 km de cerca, 20 porteiras, 4 represas e 10 áreas de pastagem, com 542 hectares cada, iniciando a pecuária. A propriedade foi acessada através de 30 km de estradas que abriu. Tudo corria bem até que no longínquo Norte de Mato Grosso as conversas na rua começaram a ser sobre “Parna”.
Fantasma do Parna
A sigla para Parque Nacional começou a ser ouvida no Norte do Mato Grosso em 2004, quando o Ibama começa a realizar as audiências públicas para apresentar a proposta de criação do Parna do Juruena.
Os estudos prévios realizados pelo Governo Federal apontavam que a área destinada ao Parna tinha uma singular biodiversidade. Além disso, o território “emendaria” com a Terra Indígena Apiaká, formando um corredor verde na fronteira dos estados.
A notícia não foi muito bem recebida pelos “nativos”. Jefferson conta que participou das audiências públicas na época, com os prefeitos da região e lideranças locais presentes. Ninguém queria a implantação do parque. Mesmo assim, aconteceu.
Com o decreto de junho de 2006, os mais de 1,9 milhão de hectares foram transformados no Parque Nacional do Juruena. Todas as propriedades privadas dentro do perímetro demarcado foram declaradas como de utilidade pública. Dos 38 mil hectares dos irmãos Salomão, 35 mil hectares ficaram dentro do Parque. Restaram duas áreas não conectadas, somando 3,3 mil hectares. O documento especificava que caberia ao Ibama proceder com as devidas desapropriações, indenizando, conforme determina a lei. “Entendemos que seria um Parque Nacional e que aquela área seria destinada a preservação. Freamos os investimentos e esperamos para ver o que iria acontecer dali em diante. Acreditávamos que talvez a situação fosse revertida”, conta Jefferson.
Fonte: Jamerson Miléski













