
Uma dívida entre um produtor rural e uma multinacional, que já estava sendo discutida na Justiça, gerou um episódio de pânico. Maikel Alan Tespesal foi alvejado por dois tiros de pistola dentro da sua caminhonete enquanto passeava com sua família em suas terras. O autor dos disparos foi Renato Azilago, contratado pela Abrex do Brasil (que faz parte da corporação japonesa Mitsubishi), para colher o milho que serviria como “arresto” para garantir o pagamento da dívida.
O episódio aconteceu na manhã desta sexta-feira (26), por volta das 9h. Thatieli dos Santos, esposa de Maikel, contou que a família foi andar pelas suas terras, na Fazenda Rio Ferro, para olhar a lavoura. Na caminhonete Hilux Branca dirigida por Maikel ainda estavam os dois filhos, de 15 e 2 anos de idade. O vídeo, gravado pelo filho de 15 anos mostra o exato momento em que a família passa por uma caminhonete estacionada na beira da estrada, Renato desce já com a pistola atirando. Maikel atropela Renato e parte em fuga.
Dois disparos atravessaram o para-brisa da caminhonete, acertando Maikel no rosto e no ombro. “Foi assustador. A gente vai todo dia pra fazenda. Estávamos olhando a roça de longe e quando a camionete deles chegou perto ele já saiu atirando. Quando eu vi que não tinha sangue no meu filho, agradecia a Deus. Meu marido é um homem forte. Antes nele que nos filhos”, contou Thatieli.
Mesmo baleado, Maikel dirigiu até o pronto socorro de Feliz Natal, onde foi atendido e transferido para o Hospital Regional de Sorriso, onde foi submetido a uma cirurgia para remover as duas balas que ficaram alojadas.
A ocorrência foi registrada pelo tenente coronel da PM, Juliano Athayde. Conforme boletim, Renato foi socorrido pelo Oficial de Justiça Genilson, que estava presente durante o cumprimento da ordem judicial de arresto. “Durante a ação, entre o momento em que Maikel lançou o veículo contra Renato e os disparos efetuados por este, a vigilante Francineide, que prestava serviço de segurança no local, efetuou um disparo com um revólver calibre .38 em direção ao pneu dianteiro da caminhonete conduzida por Maikel, na tentativa de impedir sua fuga”, relata o documento lavrado pela PM.
Renato também foi encaminhado para o hospital de Sorriso. As diligências feitas pela equipe do Patrulhamento Rural de Sinop, juntamente com o Comandante do 11° Batalhão não localizaram a arma de fogo utilizada por Renato.
O que a Agrex fazia na área?
Renato foi contratado pela multinacional para proceder com a colheita de 48.780 sacas de milho, que serviriam de arresto para garantir o futuro pagamento de uma dívida que está sendo discutida na justiça.
Em uma decisão controversa, expedida na quarta-feira (24) no processo nº 1000542-25.2026.8.11.0093, a Justiça autorizou a Agrex a ingressar na propriedade de Maikel, colher “a soja” e levar o grão para onde quisesse, inclusive com reforço policial. No mesmo dia uma equipe foi enviada para a fazenda e começou a colher.
Embora a decisão diga “sacas de soja”, o que havia plantado na lavoura era milho. Os advogados chegaram a entrar com uma cautelar tentando reverter a decisão, mas não aconteceu. A dívida é oriunda de um contrato referente a compra de insumos, que Maikel pagaria com 32.520 toneladas de milho. A Agrex conseguiu convencer o juízo que outras cláusulas do contrato não foram respeitadas, elevando a conta para mais de 48 mil sacas.
Segundo Thatieli, essa dívida não havia sido paga porque a Agrex não honrou com sua parte. Ela conta que na safra da soja, a família comprou 90 partes de fósforo, mas a multinacional só entregou 50. A Agrex foi até a justiça para executar a dívida e fez um arresto de soja no final da primeira safra. Os problemas comerciais se repetiram na safra do milho. “Compramos 400 toneladas de ureia, que é o fermento para o milho. Eles entregaram 200 toneladas. Por isso estávamos discutindo a dívida, até que o juiz permitiu que eles entrassem na nossa roça, colhessem e levassem o grão embora”, pontuou Thatieli.
Apesar da decisão judicial impactante para a família, Thatieli disse que não houve confrontamento e que a colheita estava sendo feita conforme a ordem. “Não tínhamos tido nenhum outro contato antes. Estávamos apenas andando e olhando a roça”, afirmou.
O GC Notícias entrou em contato com a Agrex. Através da sua assessoria de comunicação a multinacional afirmou que “A Agrex sempre prioriza o relacionamento com seus clientes, os fatos ainda estão sob investigação e estamos colaborando plenamente com as autoridades”. A empresa se negou a responder qualquer pergunta.
Confira o vídeo com o momento em que a tentativa de assassinato ocorreu.
Fonte: GC Notícias













