
Tem um momento, quando você está no meio do mato, com o barulho da motosserra cortando o ar e uma árvore de mais de 12 metros caindo à sua frente, que o impulso é de reprovação. A cena parece errada. Parece crime.
O Cipem diz que não é.
Na quinta-feira (25), a 6ª edição do Dia na Floresta, evento promovido pelo Cipem (Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso), levou mais de 150 pessoas para dentro da Fazenda Leonel Bedin, em Ipiranga do Norte. A convite da organização, a equipe do GC Notícias participou da imersão para acompanhar, na prática, como funciona o manejo florestal sustentável. Pesquisadores, engenheiros florestais, representantes de órgãos ambientais e estudantes caminharam juntos entre as árvores.
A sensação que ficou no ar, literalmente dentro da floresta, foi a de que aquele dia inteiro havia sido construído com um propósito muito específico: mostrar que o setor madeireiro e a conservação ambiental não são adversários, mas que coexistem dentro de regras técnicas e legais.

A floresta não é um lugar de paz
Para o engenheiro florestal Guilherme de Re da Silva, para entender por que o manejo faz sentido é preciso compreender o que acontece dentro de uma floresta sem intervenção humana. “A floresta é um ambiente em constante disputa. Árvores competem por espaço, luz, água e nutrientes. É uma competição silenciosa que acontece o tempo inteiro”, explicou Guilherme.
Segundo o engenheiro, em determinadas situações, árvores muito grandes e dominantes podem limitar o desenvolvimento de indivíduos mais jovens ao redor, justamente por ocuparem a maior parte do espaço no dossel e concentrarem o acesso à luz. Quando essas árvores caem naturalmente — seja pelo vento, pela chuva ou pelo envelhecimento — podem causar danos significativos às árvores menores durante o tombamento.
Dentro dessa lógica, explicou Guilherme, o manejo procura retirar, de forma planejada, indivíduos previamente selecionados para estimular a renovação da floresta, reduzindo impactos que poderiam ocorrer de maneira natural.
Antes de qualquer corte, cada árvore recebe uma placa, com a cor que define o destino daquele indivíduo dentro do ciclo de manejo da floresta.
Placa verde: Árvore apta ao corte; cumpriu os critérios técnicos para ser colhida de forma seletiva.
Placa azul: Árvore remanescente; permanecerá em pé por cerca de 20 a 35 anos, até estar apta ao próximo ciclo.
Placa vermelha: Árvore porta-sementes; não será cortada, seus frutos servirão para a regeneração natural da floresta.

O aplicativo Madeireiro, da G2R Soluções Tecnológicas, mostrava em tempo real o mapa da área, as árvores catalogadas e essa classificação por cores. Não havia nada de improviso naquele mato. Cada indivíduo tinha nome, localização e destino definidos dentro do sistema. Essas informações são compartilhadas com os órgãos ambientais que regulam a atividade. A “plaquinha” acompanhará a árvore da floresta até o destino final da madeira, como uma carteira de identidade.
“Todo esse processo começa ainda no inventário florestal, quando cada árvore é identificada, medida e classificada de acordo com critérios técnicos definidos em legislação”, explicou a engenheira florestal Viviane Kelm, responsável por conduzir parte da trilha.
A teoria virou prática
A árvore de número 2248 caiu. Tinha placa verde. Estava autorizada para o corte. Outra, com placa azul, permaneceu em pé. Em 20, talvez 35 anos, poderá ser a próxima.
Aquela árvore que, no início da visita parecia estar sendo derrubada de forma aleatória, já havia sido medida, identificada, georreferenciada e classificada muito antes da motosserra entrar em ação.
“Quando você faz manejo florestal, assume um compromisso de garantir que aquela propriedade permaneça com floresta e que, daqui a 25 ou 30 anos, exista um novo ciclo de madeira”, ressaltou Gleisson Tagliari, presidente do Cipem.
Fonte: GC Notícias













